Jurei não mais amar pela décima vez Jurei não perdoar o que ele me fez O costume é a força que fala mais forte do que a natureza E que nos faz dar provas de fraqueza Senti que o meu coração quis parar Quando voltei e escutei a vizinhança falar Que ele só de pirraça seguiu com um praça ficando lá no xadrez Pela décima vez ele está inocente nem sabe o que fez Joguei meu cigarro no chão e pisei Sem mais nenhum, aquele mesmo apanhei e fumei Através da fumaça neguei minha raça chorando, a repetir: Ele é o veneno que eu escolhi pra morrer sem sentir.
Meu instinto laparoscópico e inadequado me diz que jamais devo escrever quando estou bêbada de sentimentos ou desvalida por uma onda de tédio. É uma fumaça que nem turva nem sobe aos céus, inalá-la é imperioso e exalá-la é um alívio que cobra seu superestimado preço nesse mercado negro dos bytes que voam.
Não tenho escrito nada digno, nada que me dê dinheiro nem que me consiga sexo, drogas ou róquenrôl. E me gera um imenso vazio motivacional não ter o que dizer.
(À parte 1: eu tenho, sim, muito o que dizer. Quando escrevia minha filosofiazinha de boteco, não era pra ninguém mais que pra mim, me fazia sentir bem, me deprimia e depois me fazia cócegas, conquistava espaços e caretas nihilistas. O ôco das pessoas me devolvia um eco, um ego, uma tristeza com aquele risinho de canto de lábio, bem meu e bem canalha. Delightful.)
(À parte 2: não me leia como quem reencarna de Argos, o meu pavão interior morreu no dia em que eu descobri meu dom para o repetismo cínico e os neologismos suspeitosos. A esfinge está em ruínas, não existe uma Razão redentora, esqueça as três dimensões que você vê e atente para a quarta, a que você nunca alcançará; motivação é objetivação de busca, é pergunta ou resposta que nunca se completa. Eu desejo, portanto existo. Razão não tem nada a ver com isso.)
Há 11 dias atrás decidi partir - quando ninguém vai sentir sua falta, bata o pé, construa sua cabana e desista de metáforas poderosas, porque isso espanta gentes; quando chorarem sua partida, doe seus livros, venda seus trapos e procure uma estrada onde tocar um blues. Até quando você também chorar, então é hora de parar e olhar o sol se pôr.
Muito embora tudo seja um grande clichê esperando para ser confundido com uma grande idéia, ainda me sobra espaço nesse coraçãozinho pimpão para um final apoteótico, hors concours, verde e amarelamente lugar-comum:
Talvez, ó instinto meu, a ridiculez deva de fato ser combatida com mãos de ferro. Entrementes, meu vinho das quartas-feiras não teria o mesmo sabor sem esse pequeno desafeto com a autenticidade, pela saúde da dor compartida.
Quand je vous aimerai, ma foi, je ne sais pas. Peut-être jamais, peut-être demain; Mais pas aujourd'hui, c'est certain.
n. 5 - Habanera
CARMEN L'amour est un oiseau rebelle Que nul ne peut apprivoiser, Et c'est bien en vain qu'on l'appelle S'il lui convient de refuser. Rien n'y fait; menace ou prière, L'un parle bien, l'autre se tait; Et c'est l'autre que je préfère, Il n'a rien dit, mais il me plaît. L'amour est enfant de Bohème, Il n'a jamais, jamais connu de loi; Si tu ne m'aimes pas, je t'aime; Si je t'aime, Prends garde à toi! L'oiseau que tu croyais surprendre Battit de l'aile et s'envola L'amour est loin, tu peux l'attendre Tu ne l'attends plus ... il est là Tout autour de toi, vite, vite, Il vient, s'en va, puis il revient Tu crois le tenir, il t'évite, Tu crois l'éviter, il te tient. L'amour est enfant de Bohème, Il n'a jamais connu de loi; Si tu ne m'aimes pas, je t'aime; Si je t'aime, Prends garde à toi
Primeiro ensaio geral da ópera Don Giovanni no Teatro Jovellanos de Asturias. Dueto n. 7 de Don Giovanni e Zerlina (Martin Tzonev e Beatrice Díaz, respectivamente). Sem a iluminação, vestuário completo, nem elementos de cena - e gravado dos bastidores, mal e porcamente por esta que vos fala. Ainda assim, é lindo.
Estou em Asturias até o fim do mês, trabalhando na produção da ópera Don Giovanni.
Meu amigo Tarrask está nesse momento vendo o show de Toquinho e Maria Creusa em Madrid. Eu estou nesse momento com meus pés numa salmora improvisada na banheira do meu quarto de hotel, mais morta que Il Commendatore no fim do segundo ato.
Nesse momento também estou ao telefone com Tarrask, escutando todo o show. É a promoção da Vodafone, ele me liga, paga o primeiro minuto e fala outros 59 grátis. Uma cobertura péssima... agora acabei de ouvir "volta, bandida". Acho que estão cantando Samba em Prelúdio.
Maria Creuza e Toquinho estão conversando agora... Eles amam Madrid. Risos. Ela soltou um "com certeza" e logo depois um "por supuesto".
Samba da Bênção, tem música mais bonita pra ouvir com meus amigos, não. Digo com certidão passada em cartório do céu, assinado embaixo "Deus"; e com firma reconhecida.
O homem que diz "dou", nao dá, mas sem você, meu amor, eu não sou ninguém.
Estou arrepiada. A felicidade é como a pluma... Vou apagar a luz, curtir o meu show remotamente ao vivo e cantar com meu querido amigo, ele lá e eu cá.
Turandot, Pucchini - Lucciano Pavarotti Atto III - Quadro primo
PEOPLE No man shall sleep! No man shall sleep!
CALAF No man shall sleep! No man shall sleep! You too, o Princess, in your chaste room are watching the stars which tremble with love and hope! But my secret lies hidden within me, no one shall discover my name! Oh no, I will reveal it only on your lips, when daylight shines forth and my kiss shall break the silence which makes you mine!
WOMEN off stage; distant Nobody will discover his name ... And we shall have to die, alas! Die!
CALAF Depart, oh night! Hasten your setting, you stars! Set, you stars! At dawn I shall win! I shall win! I shall win
En este documental, Glenn Gould volvía a todos locos porque querían quitar de la grabación el sonido de su constante canturrear mientras tocaba el piano. Es que su madre le dijo, cuando era niño, que si quería tocar una canción, tenía que cantarla, pues esa era la mejor manera de lograr aprendersela. Él siguió haciéndolo toda la vida.
Minhas tardes são sobre silêncio e páginas em branco - que, se Deus quere, vão se recheando ao longo das horas.
Vez ou outra, eu escuto, desde algum lugar da minha rua, músicas que algum vizinho escuta, em tom de eco, sempre na mesma altura, sempre o mesmo vento que traz; imagino que ele/a coloca a vitrola na varandinha da sala do seu apartamento, acende um cigarro e fica olhando o céu - ao menos sei que era isso que eu faria se minha casa tivesse uma varandinha e dela eu conseguisse olhar o céu. Sei que é uma vitrola porque às vezes eu escuto o ruído inconfundível da agulha no vinil quando se muda de faixa.
Semana passada, escutei "pequeña serenata diurna" num vento leste de verão, quente e imprudente, como quem busca uma saia pra levantar. Eu estava especialmente desiludida, na companhia de um hiato criativo insistente, mas foi uma grande tarde aquela: não falei com ninguém, desliguei o computador e fui escrever no papel (alguém lembra dele?) algumas notas sobre dois ou três assuntos, e de repente havia escrito três páginas inteiras sobre la gramatica de las multitudes. Não vai entrar na tese, mas vai entrar em alguma coisa, algum dia.
Hoje, 34 graus, dois litros de coca light e um banho de 40 minutos, ainda nenhuma palavra na página em branco. Pensei em me drogar com um livro de poesia do leminski, que já viajou continentes na minha mochila, já se molhou, já se enlameou, já serviu de travesseiro, já foi amado e odiado e sempre me serve quando nenhum ser humano.
Foi aí que escutei o violão bossa nova, só os seus baixos, vindo das paredes desde algum lugar direto pra minha cabeça. Tum tum, tum tum - me senti em casa - , olhei ao redor, procurando alguma coisa minha ligada... o ipod ligou só? Mestrado gera traumas? Meu vizinho conhece música brasileira e estava escutando "Eu Sei Que Vou Te Amar", do disco do Vinicius, Toquinho e Maria Creuza na Itália, onde ele recita o "Soneto de Fidelidade" enquanto ela cantarola...
Depois ele colocou o Tom cantando "Dindi" com o Frank Sinatra.
Entre o êxtase e o não-mover-um-dedo-pra-não-assustar-a-música-boa, decidi vir escrever sobre isso, aí ele/a colocou "Bem Devagar", numa versão velhíssima do Gilberto Gil. Melhor deixar de escrever baboseiras que ninguém vai ler e curtir o momento que não voltará.
No hay nada como la compañía una bella copa de vino mientras trabajas en lo que te gusta. Y me gusta enrojecer una noche lluviosa con palabras y vino.
Ahora me doy cuenta que la elección de la música no debe ser aleatoria (o respetar la aleatoriedad de tus inclinaciones momentáneas), sino que las uvas tienen banda sonora. Al menos es lo que dice la pesquisa de Montes Wines respecto a la alteración de la percepción del sabor del vino por la clase de música que escuchas al degustarlo.
De ahí, que todo un menú musical de degustación de varias clases de vino fue elaborado:
Carbernet Sauvignon
All Along the Watchover - Jimmi Hendrix Honk Tonk Woman - The Rolling Stones Live and Let Die - Paul McCartney y Wings Won't Get Fooled Again - The Who
Chardonnay
Atomic - Blondie Rock DJ - Robbie Williams What Love Got to Do Whit It - Tinna Tunner Spinning Arround - Kylie Minogue
Syrah
Nessun Dorma - Puccini Orinoco Flow - Enya Charlots on Fire - Vangelis Canon - Johann Pachelbel
Merlot
Sitting on The Dock of the Bay - Otis Redding Easy - Lyonel Ritchie Over the Rainbow - Eva Cassidy Heartbeats - Jose Gonzalez
Estos son los tintos, los que más me gustan. También es la prueba irrefutable de que nuestros sentidos nos engañan, ya que yo disfruto mucho más de estos vinos embalada por otros ritmos - el menú se lo he probado.
Más allá de una selección musical "energética y refrescante", "poderosa y dura" o "sutil y refinada", creo que el sabor del vino de una noche fría no se hace mejor o peor sensorialmente, sino que sentimentalmente: la música no es gramática, sino poesía. Cuando Miles Davis toca para mi, lo que se me altera no son las papilas gustativas, es el despliegue, la memoria transfigurada, las ausencias y la belleza de las noches de lluvia. "It never entered my mind...".
Labanda sonora es tan intimista que nadie, a parte de ti, se la puede escuchar.
Deus, só Deus Sabe que os olhos teus São para mim dois faróis clareando o mar Na fúria do mar Onde naufraga uma barca que o leme perdeu Coitada, essa barca sou eu A naufragar na existência que é o mar Socorre-me com a luz desses faróis Que são teus olhos azuis São dois lírios os teus seios alabastrinos Quase divinos Parecem feitos para o meu beijo Muito almejo dos lábios teus Por um som Pela glória do nosso amor Musa dos versos meus Inspira-me por quem és Minha alma, mendiga amor Curvada aos teus pés Rosa opulenta que o meu jardim ostenta De mágoa ou dor Inspiração do meu amor Eu nem sei por que foi que te amei Pois tudo em ti é formoso, é singular Amei teu perfil Amei teus olhos azuis Eu amei teu olhar Por fim, nem tens pena de mim Que sofro e choro Na ânsia de te amar Ah, triste de quem Vive a chorar por alguém
Apoteosis de Amor (autor: Cândido das Neves)
Dios, solo Dios sabe que los ojos tuyos son para mi dos farolas clareando el mar en la furia del mar donde naufraga una barca cuyo timón ha perdido pobrecita, esa barca soy yo a naufragar en la existencia que es el mar rescátame con la luz de esas farolas que son tus ojos azules son dos lirios tus senos alabastrinos casi divinos parecen hechos para mi beso mucho anhelo de los labios tuyos una seña anhelo la gloria de nuestro amor musa de mis versos me inspiras por quien eres mi alma mendiga amor arrodillada a tus pies rosa opulenta que mi jardín ostenta de penar o dolor inspiración de mi amor yo siquiera sé porque te he amado pues todo en ti es hermoso, es singular amé tu perfil amé tus ojos azules yo amé tu mirada por fín, no tienes pena de mi que sufro y lloro por el deseo de amarte ay, triste de quien vive a llorar por alguién
Hoy volvía a casa cuando aún no era hora de la gente salir de las suyas. Tenía puesto el ipod y todo sabía a Brasil, ya que media hora de silla de metro y de samba a toda voz no dejaba ser diferente. Mis manos, cuando las miré, de repente no parecían que fueran mías - me recuerdo de aquella época de la niñes en que se te permite jugar con tus manos de cualquier manera, ya que de ellas nadie esperaría ningún mal o indecencia, siquiera tu. Hoy ellas eran manos de una señora vieja, mis manos estaban cansadas. ¿O de pronto era mi mirada cansada que agotaba todo lo que veía?
Salgo del metro a la calle semi-dormida, pero de esa vez no es al Samba a que escucho, sino que a alguien que me dice cantando que todo está cierto, tan cierto como dos y dos son cinco. Nada más me faltaría, después de una buena dosis de subversión lógica a las diez de la mañana.
Estábamos a los siete grados, los termómetros y yo. Di la vuelta en el Café Barbieri y alcancé mi calle. Fue la mejor caminada que he hecho por ella nunca. El día no olía a nada (o olía al nada), llegué hacia mi puerta escuchando que todo al alrededor estaba desierto, y todo seguía cierto.
Creo que echaré de menos despistar los borrachos de la plaza, dar la vuelta al Café Barbieri, llegar a casa e intentar, en vano, mirar al cielo de Madrid desde mi ventana.
Pero nada es cierto. No sé que esquina me espera. Dos y dos son cinco.
Este blog es eminentemente bilingüe: transita entre el portugués y el español... A veces está en francés, otras en inglés, casi nunca en alemán y casi siempre asesinando gramáticas cosmopolitamente.